Comportamento

A desintoxicação dos filtros: Como parar de usá-los mudou minha autoimagem

Júlia Zecchinelli

Júlia Zecchinelli

A desintoxicação dos filtros: Como parar de usá-los mudou minha autoimagem

Houve um momento, não muito distante, em que eu percebi que já não conseguia postar sequer um "bom dia" nos stories do Instagram sem testar pelo menos três filtros diferentes. A cor dos olhos tinha que ser um pouco mais clara, a pele precisava ter um aspecto "glow", e o nariz... ah, o nariz precisava ser delicadamente afinado pelo algoritmo invisível. Quando eu me dava conta, a pessoa na tela do celular já não era mais eu.

Foi durante um dia em que a internet caiu em casa que a ficha também caiu. Ao passar pelo espelho do corredor, levei um pequeno susto. Minha pele tinha textura. Tinha pequenos vasinhos. Meus poros eram visíveis. Eu estava experimentando o que os psicólogos hoje chamam de "dismorfia do Snapchat" — uma distorção onde o padrão de beleza que tentamos atingir é a nossa própria imagem editada por inteligência artificial.

A decisão de encarar a textura real da vida

Tomar a decisão de parar de usar filtros não foi fácil. A primeira semana foi repleta de vulnerabilidade. Toda vez que eu abria a câmera frontal sem o véu digital suavizador, a autocrítica gritava. Eu sentia que estava me expondo, quase nua, perante centenas de pessoas que haviam se acostumado com minha versão plastificada.

Porém, o que aconteceu a seguir foi transformador. Ao forçar meu olhar a aceitar a minha imagem crua e real, comecei a desenvolver compaixão por mim mesma. Eu não estava mais competindo com uma versão inatingível criada em 0.5 segundos pelo Vale do Silício. Se eu quisesse que minha pele ficasse mais radiante, eu precisava beber mais água e focar no meu skincare da vida real, e não num toque na tela.

"O maior ato de rebeldia estética da nossa geração é ter coragem de existir online na sua versão crua, com textura e sem retoques."

A desintoxicação dos filtros foi o melhor "procedimento estético" que eu poderia ter feito. Com o tempo, a ansiedade antes de postar um vídeo desapareceu, porque eu parei de gerenciar expectativas irreais. E a melhor parte? As mensagens que passei a receber. Outras mulheres se sentiram aliviadas e confortáveis ao ver que eu também tinha olheiras de cansaço ou uma espinha inesperada no queixo.

Se você está lendo isso e percebe que está presa no ciclo de esconder o próprio rosto, faça um teste: uma semana de câmera limpa. Permita-se ser vista de forma imperfeita. A vida real tem poros, tem texturas, tem manchas, e é exatamente aí que mora a humanidade que nos conecta.